Sobre se encontrar

Quando me vejo tentando ser meiga e fofa na hora me vem a imagem de um rinoceronte de saia de tule rosa, tomando chá junto com as Angels da Victoria’s Secret. Me parece algo tão forçado na minha cabeça que, quando encontro alguém realmente meiga, é como se estivesse vendo uma gazela andando numa praia ao por do sol. É algo mágico.

Entao me acostumei a pensar que tinha algo de errado comigo, já que dentro da minha cabecinha é um eterno encontro de motoqueiros bêbados, em um bar de beira de estrada, quebrando tudo e gritando “CAOS!!!”. Eventualmente isso reflete nas minhas atitudes, por mais que eu tente gritar de volta com os motoqueiros.

Os anos foram passando e a sensação de anormalidade, beirando a monstrualidade, foi aumentando. As coisas foram piorando e eu não tinha ninguém com quem pudesse conversar, porque era tão simples para todo o mundo. “Mude”. Fácil assim. Mesmo se eu tentasse explicar que para mim não era fácil, era sempre a mesma resposta: mude.

OPUS
OPUS – http://www.dandelionpress.com/shop/opus

Mas o Universo tem uns caminhos misteriosos. Pessoas, principalmente meninas, começaram a aparecer na minha vida. Não eram meninas que estavam disputando por popularidade, não estavam disputando meninos, o drama existia, claro, mas não era aquela ânsia de ser qualquer coisa para ganhar a atenção deles.

Elas eram tão descoladas lendo seus mangás e usando sarcasmo sem pudor nenhum, que a primeira coisa que pensei foi “existe menina legal no mundo?!”. Tudo bem que tive que mudar de cidade para encontrá-las, mas hoje agradeço muito por aqueles momentos.

Meninas vivendo para a arte, andando de fusca azul, correndo por florestas, sujando tênis, calça e camiseta do uniforme. Sendo amigas de meninos que jogavam RPG e tocavam bateria, que também liam quadrinhos! Finalmente achei onde eu pertencia.. aos não populares. Aos que ganham uma partida de qualquer jogo, gritam e fazem a dança mais ridícula possível. Aos que esenham mapas e histórias nos cadernos e apostilas, que usam sua única arma contra os “populares“, sarcasmo.

Milli Bobby Brown, a Eleven de Stranger Things da Netflix
Millie Bobby Brown como a Eleven, a.k.a., princesa das minas incríveis, na série Stranger Things da Netflix

Dois anos depois me mudei para outra cidade do interior e lá estavam eles novamente: os que não se encaixavam, os rinocerontes com saias. Agora eu já sabia distingui-los de longe, só bastou um comentário habilidoso, uma gargalhada estranha, um oi e eu estava segura.

Quase dez anos depois e os rinocerontes ainda se encontram para tomar sorvete juntos ou jantarem, sem medo e com muita coisas impopulares. Fazer o quê? Algumas coisas nunca mudam e é a melhor coisa que pode acontecer.

P.S.: Se alguma Angel ou gazela quiser fazer parte do grupo, aqui todo mundo é bem vindo, mas algum motoqueiro louco pode gritar do nada. Apenas o alimente que passa.

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