Quando meu pai me comprou sucrilhos

Talvez sejam as décadas, talvez seja o gênero, o sexo. Talvez sejam as circunstâncias em que nascemos, mas meu pai e eu temos mentalidades muito diferentes.

Ele nasceu em 1945, sua mãe era refugiada de guerra e seu pai um eterno boêmio. Ele presenciou governos de extrema direita e eu só os aprendi na escola e faculdade. Ele era da época onde a malandragem era o melhor jeito de se conseguir as coisas, quem era mais esperto saia na frente. Enquanto eu sou da geração que preza (ou tenta ao máximo) ser correto, não ser mau caráter. Ele é evangélico e eu espírita.

Ele acredita na força do Estado gerenciando tudo, no indivíduo sendo controlado pelo o que um Governo acredita e eu acredito na liberdade. E então ele leu meu texto sobre o que estaria acontecendo com o mundo [este daqui] e as coisas mudaram um pouco. Ele me comprou sucrilhos.

Na juventude do meu pai já existiam gays, mas eram tidos como aberrações da natureza, eram massacrados ou mortos em sua grande maioria. O Estado era o detentor da força bruta (ainda o é), quem não fosse a favor ou não andasse na linha “desciam o cacete”, como ele diz. Mulheres eram ótimas donas de casa e não mostravam nem o tornozelo, a peça mais tecnológica era uma calculadora do tamanho de uma máquina de escrever. Até entendo um pouco nosso choque cultural.

Meu pai traiu minha mãe por dois anos até ela descobrir e decidir acabar com o matrimônio de 15 anos. Ele passou longe de receber o troféu de melhor pai do ano por muitos anos e sempre foi mulherengo, mas sempre adepto da tradicional família brasileira, da moral e dos bons costumes.

Ele já enrolou muita gente.

E então eu voltei a morar com ele quando tinha 18 anos e começar a faculdade. Eu, a que acredita na beleza da liberdade do ser, a que abomina religiões castradoras, a que estudou história, sociologia e cinema. A que se apega fisicamente a livros e sonhos. A que preza pela verdade em um relacionamento e ficou paranóica depois de tudo.

Nossos destinos se cruzaram não foi por acaso, eu sofri muito com isso por muito tempo, mas agora aprendi que eu tinha que ser filha dele.

E então eu escrevi um texto sobre política, sobre família, amigos gays e lésbicas e acima de tudo, sobre não abandonar o lar. E ele me comprou meu sucrilhos favorito.

Uma noite, depois de chegar da aula, fui fazer chá pra nós dois enquanto falávamos sobre a situação política do país e eu batia o pé dizendo que tenho esperança na geração que invade o Câmara pra exigir uma CPI sobre roubo da verba da merenda, na geração que ocupa as ruas da cidade pedindo por uma educação melhor. São crianças. São guerreiros. Pequenos Gaverroches lutando por seus direitos.

Então eu disse que a minha geração não ia abandonar a casa, que íamos ficar para consertar o que a geração do meu pai estragou e está estragando.. Ele ficou em silêncio mórbido e eu pensei “mais uma vez a mera foi lançada no ventilador. Então vamos esfregar nas paredes!” e entreguei meu texto para ele ler.

No dia seguinte tinha uma caixa do meu sucrilhos favorito em cima da mesa.

Eu achei que ele jogaria o IPad na minha cabeça após ler o texto, mas a expressão foi completamente diferente e surpreendente. Ele começou a chorar.
Disse que concordava comigo, que nunca se abandona uma batalha, muito menos um país e que se a geração dos meus irmãos (mais velha) não está preocupada com o tipo de país que vai deixar para os netos dele e meus sobrinhos, ele agradece a Deus que a minha está lutando.

Naquele momento eu só estava lutando com minhas lágrimas. Então coloquei chá para nós dois, dei um beijo de boa noite nele e disse que só vou parar de lutar pelo o que eu acredito no dia que eu morrer e meus sonhos também.

Ali entramos em um acordo silencioso e no dia seguinte tinha uma caixa de sucrilhos em cima da mesa, ele veio fazer café da manhã pra mim e seu bom dia foi “pra você continuar tendo força pra lutar”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *