O que está acontecendo com o mundo?

Carrie,

Eu nem sei direito por onde começar, está tudo uma grande bagunça. Pior, uma bagunça de ódio. As pessoas estão tornando as ruas da minha cidade me arenas romanas, mas sem grandes muros de contenção, então todo o ódio é destilado. Pelas avenidas, pelas ciclovias, pelas favelas, pelas ruas dos condomínios, parece que não há mais lugar seguro, não há mais um lugar onde o ódio não entre.

Ontem as pessoas elogiaram o maior símbolo do ódio no meu país. O queriam para Presidente. Isso me fez chorar, pois eu pensei nos meus sobrinhos, como eles cresceriam em um país comandado por uma pessoa que exalta torturadores, diz que mulheres merecem ser estupradas, negros humilhados e gays mortos. Como alguém consegue pensar assim? Mais absurdo, como existem tantos seguidores de tal mal?

“Meus filhos vão morar fora”, é como dizer “Essa é a casa em que você cresceu, em que você deu seus primeiros sorrisos, seus primeiros abraços e seus primeiros passos. Essa é a casa em que seus pais cozinharam café da manhã juntos pra você, a casa onde você e seus irmãos inventaram histórias de piratas e contos de fadas. Essa é a casa onde plantamos nosso jardim, mas chegaram os fungos e o devoraram e agora estão começando a querer comer as paredes para chegarem na estrutura. Essa é a casa onde você nasceu e nós vamos abandoná-la”. Eu não quero abandonar minha casa, quero ficar e continuar a fazer história nela, quero escrever meus livros e ver crianças brincando nela, quero ver meus amigos andando por ela sem medo de serem mortos ou violentados. Eu quero que minha casa se torne um lar para a minha geração e para as futuras.

Em toda escuridão ainda existe um foco de luz (eu venho a cada ano tentando acreditar mais nisso) e sábado aconteceu mais uma. Ou duas, eu vou te explicar.

No sábado um negra -tida como uma das mulheres mais poderosas do mundo- lançou um álbum novo em forma de filme, suas músicas em uma história continuada. Novamente ela supreendeu milhões de pessoas  em milhares de cidades. Essa negra declamou os poemas de outra negra (quem eu amo e admiro muito há uns 3 anos). Mas os poemas dessa segunda negra não são apenas sobre o amor, na verdade eles não são nem um pouco simples. Ela fala sobre homens que não sabem amar as mulheres, sobre homens que aprenderam com seus pais, que por sua vez aprenderam com seus pais, que mulheres existem para serem tratadas como objetos de disputa e conquista, nada além disso, elas servem para suprir as vontades dos homens e não possuem vontades próprias.

A poeta negra também fala sobre insegurança e ao mesmo tempo sobre coragem. Como se sentir a pior criação que já andou pela face da Terra e mesmo assim, se postar na frente do homem, que ainda não aprendeu a amar, e falar sobre amor. Ela fala sobre como “não podemos construir lares em pessoas”. Ela fala para todas. E então a cantora, multimilionária, a que mais tem poder de persuasão sobre a juventude, declama os poemas entres musicas também sobre as dificuldades do amor. E o mundo para por alguns dias para falar das criações de duas mulheres negras e então meu lar, que estava escuro, se acende com um pouquinho de esperança.

Daqui alguns dias essa cantora irá liderar as paradas internacionais, que atualmente é liderada por outra negra (caribenha) que quebrou todos os paradigmas anteriores, essa sim, meu símbolo maior. Foi a primeira negra a estampar a capa da sua amada Vogue -e não só em uma edição, mas em duas paralelamente-, foi a primeira negra a ser embaixadora da Dior, a primeira negra a protagonizar e dublar uma animação da DreamWorks, entre tantos outros recordes batidos no mundo da música. Sim, a negra caribenha, toda tatuada e “party girl” moldou e molda o mundo do entretenimento, um mundo que por muitos anos era comandado por homens que estupravam suas estrelas (vide história de Marilyn Monroe, Grace Kelly, Elizabeth Taylor e tantas outras), homens que apenas contratavam mulher brancas, magras, de narizes finos e pequenos, com ar de inocência e sensualidade. Homens que não aprenderam a amar as mulheres.

Eu nunca vou saber quais os preconceitos que pessoas que apenas têm a cor diferente da minha passam, que as pessoas que têm menos dinheiro do que eu passam, mas eu vou ficar um pouco mais feliz em saber que existe o movimento feminismo negro e que eu tentarei sempre deixar elas falarem e não compararei as minhas mazelas com o sofrimento delas.

Carrie, eu não sei direito o que está acontecendo com o mundo, mas agora tentarei lembrar das vitórias que estão acontecendo pelo mundo (pessoas abraçando e ajudando refugiados, cada vez um número maior de voluntários pelo combate à fome em países pobres, mulheres finalmente sendo retratadas como seres humanos capazes de tudo em filmes e séries, brancos e negros de braços dados pelas ruas gritando “VIDAS NEGRAS IMPORTAM!”, poetas negras recebendo honrarias da Academia Britânica, o direito e a proteção dos animais tomando conta da mídia, opções mais sustentáveis para cada situação).

Não é na minha casa, mas ainda assim é onde eu moro e isso me dá esperança e força pra combater o ódio do mesmo jeito que grandes gênios fizeram -e eu tento aprender e reproduzir 1% que seja- com arte.

Eu não vou abandonar minha casa.

 

 

*A destinatária dessa carta foi Carrie Bradshaw, personagem de Sex and the City, jornalista e icone.

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