Garrafa de Café

O dia começou com o celular tocando às 9:00. Ela só precisou abrir os olhos porque já estava acordada. Na verdade não havia nem dormido, ou se dormiu, nem percebeu. Essa estava sendo a vida dela agora: não perceber. As noites passavam, as horas passavam, as pessoas passavam e ela não percebia, estava num estado anestesiado, entorpecido.

O celular continuava tocando. Ela não havia percebido. Deu o primeiro suspiro do dia e resolveu atender. Era o gerente do banco dizendo que a coisa estava ficando feia para o lado dela (como se ela já não soubesse), ela foi cordial e disse que iria dar um jeito, só precisava de mais tempo, sabia quais eram as consequências. Será que sabia mesmo?

Café da manhã. Essa é a parte boa de se estar desempregada, fazer em 2 horas o que você fazia em 2 minutos. Aquelas eram as últimas colheres de café, então resolveu fazer a garrafa inteira e para depois ir ao supermercado e fazer a compra do mês. Talvez ela fosse até em três supermercados diferentes cotando os preços, tempo ela tinha agora. O café estava pronto. Tempo, quanto tempo será que dura uma garrafa de café? Por quanto tempo será que aquela garrafa manteria o café quente? Será que o açúcar vai estragar o gosto forte do café? Ou será que vai melhorar? Depende de quem o toma. O seu coração estava mais calmo.

Ela decidiu ir para o quarto e se arrumar, estava se achando bonita, livre, sem as amarras de ser mais uma do “sistema”, mais uma na multidão, ela iria provar que ela não era mais uma, ela iria se arrumar para a batalha. Ela provaria ao mundo que ela é mulher suficiente para se impor sozinha e não precisa de homem ao seu lado pra mostrar que ela é completa. Ninguém é completo, essa é a beleza da vida. Seu coração estava mais calmo. Ela conseguia respirar.

Chaves, carteira, celular, bolsa, maquiagem, um livro sobre economia e finanças internacionais intitulado “Dinossauros Destroem Caixa Eletrônico” (porque nunca se sabe quando vamos descobrir um parque, um banco, uma praça calma e ensolarada para lermos -mas nada de leitura romântica), chaves de casa, lista de compras, agenda, bala, cigarro, pulseira… Antes que pudesse perceber, já a tinha colocado no pulso. A respiração deu uma falhada. Ela ainda não tinha conseguido de libertar completamente.

Lá foi ela, primeiro passaria no supermercado, depois procuraria algum lugar calmo e bonito para ficar um pouco e então passaria em um canil para adotar um cachorro. As coisas estavam se acertando, “pouco a pouco tudo irá entrar em equilíbrio”, ela repetia isso como um mantra. Pegou um carrinho, tirou a lista de compras da bolsa e começou pela parte de jardinagem, “a casa era cinza, vou dar um pouco mais de vida agora”, escolhendo alguns arranjos, partiu então para os outros setores.

Laticínios, pães, guloseimas, o básicão, adega, produtos de limpeza e por fim higiene e lá estava ele.. diferente do que ela se lembrava, de barba feita e comprando aparelho de barbear. Ela ficou estática, de repente toda a falta de percepção de tempo e espaço havia voltado. Ele havia voltado. “Pensa rápido!” ela se forçava a se mexer, se forçava a respirar. Ele olhou para ela. O coração não estava nem um pouco calmo. “A pulseira! Essa é a hora de devolvê-la!”. Todas as frases clichês de auto ajuda bombardeavam sua mente. Eles se encaravam.

Por um milagre ela conseguiu se mexer, andou em direção a ele, colocou a mão na bolsa e pegou a pulseira. “Oi”, “Oi”. Um terceiro “Oi” apareceu ao fundo. A nova namorada. A que sempre foi protagonista dos pensamentos dele, enquanto ela era simplesmente a condjuvante, a que ajudava o herói da história a triunfar, mas que nunca ganharia nenhum mérito, nenhum spin-off.

Vê-la ali, parada ao lado dele a matava por dentro. Ela ia explodir. “Eu não preciso mais disso, pode ficar para você. Você vai precisar mais.” e devolveu a pulseira que por muito tempo foi seu amuleto da sorte. Ele estava mais chocado do que ela. Ela conseguiu ir embora.

Chegando em casa ela jogou as compras, se jogou no balcão da cozinha e começou a chorar. Ela esqueceu as flores no supermercado. O café havia esfriado.

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